A família está trabalhando em sua lavoura, precisam de todo braço disponível possível, até o filho de tres anos está ajudando. Se essas sementes não entrarem na terra hoje, a colheita não chega antes da dispensa esvaziar. O sol está quente, mas a pele já é curtida, aguenta. Ninguém fala uma palavra. Todos tem muito a dizer, iriam perder tempo. Tempo que não têm. O labor é urgente. O labor é plantar. Palavras, mesmo duras, são leves, o vento da fome leva rápido. Mas o que plantamos frutifica, fica, alimenta. De repente o tempo fecha. A mãe olha para cima, não fala nada, mas sua expressão grita ‘agora não!’. O pai olha de soslaio para a mãe. Se ela se desesperar ele perde as forças. Os filhos olham um para o outro. A mais velha abre a boca, mas a experiência já mostrou que o silêncio naquela hora doía menos que um tapa. Todos abaixam a cabeça e voltam à semeadura, velocidade aumentada em sincronia. Mas o vento começa, o céu escurece, os raios surgem, a tempestade é a próxima a chegar. O mais novo, carregando as sementes ao lado do pai, grita de susto com um trovão mais forte, lágrimas começam a escorrer, o pai o acalma com um shush áspero. Outro raio, mais forte em seguida, e o trovão que o segue, mais alto ainda. O menino grita, todas as crianças se assustam, com o raio e com o grito. A mãe para, sabe que terá que acalmá-las. Mas não dá tempo. O trovão parece que vai partir as densas nuvens pretas em cima de suas cabeças. O menino corre e derruba todas as sementes na terra. Aí sim, o pai grita, um grito curto de desespero, as mãos na cabeça, os olhos fixos na perda. Todos os setes filhos abraçam à mãe, ela usa todas suas forças para não mostrar dor no rosto. O pai corre para juntar as sementes mas não dá tempo, uma rajada forte de vento espalha todas as sementes, tão forte que chega a derrubar o pai no chão. A mãe e os filhos correm para o casebre, olhando para trás, chamando pelo pai. Um raio cai próximo a ele, que desiste e corre derrotado para se juntar à família. Antes de chegar à casa a chuva cai toda de uma vez, em três segundos o pai entra ensopado dentro de casa. Todos se encaram por um segundo, mas não há mais tempo a perder. Todos têm ensaiado suas funções na família. Ninguém ali é obsoleto. Cada um atende rapidamente a sua tarefa. Até o menino de três anos, mesmo ainda chorando, vai pra cozinha ajudar a mãe catar feijão pro almoço. Só o pai fica na porta, olhando para a lavoura, tentando contabilizar seu prejuízo e o próximo sacrifício para sustentar a família. A mãe está na cozinha, orando de olhos abertos, secando lágrimas teimosas com o pano de prato de tempo em tempo. A mais velha, mais experiente, pega a Bíblia e vai para a sala ler ao lado do pai, e como a mãe, ora de olho aberto, pedindo consolo e salvação para sua família, tentando jogar para o fundo da consciência um ‘Por que, Deus?’ teimoso e petulante. O dia passa difícil, vão dormir falando o mínimo com cada um.
A mãe acorda assustada, ainda é madrugada, mas o pai não está na cama. Ela vai procurá-lo, temendo o abandono, mas ele está pulando de alegria, correndo pelo campo perdido. Ela se aproxima pensando ‘esse homem bebeu’, querendo sentir o cheiro para confirmar seu medo, mas ele não cheira a álcool. Quando ele finalmente percebe a presença da esposa, agarra seus ombros e lhe da um beijo forte e rápido no rosto. A essa altura todos os filhos estão na porta olhando para os dois. O pai pula e grita de alegria. O vento forte espalhou as sementes pelo campo, a chuva forte de pingos grossos e pesados abriu sulcos na terra, os trovões e raios espantaram os pássaros, que não tiveram tempo de comer as sementes. Nada foi perdido, nada foi em vão. As sementes estavam todas debaixo da terra, o trabalho estava feito, eles teriam o que vender, o que comer, como viver, como continuar juntos no pedacinho de terra que lutaram para ter. A mãe, ainda confusa, sem entender, ouve no fundo da cabeça uma voz ‘viu o que eu posso fazer?’, mas logo é interrompida pela mais velha, que assim que percebeu o que tinha acontecido, correu para junto dos pais, seguida dos irmãos, todos ainda sonolentos e confusos, o mais novo agarrado na fralda presa à chupeta ainda na boca o acalmando. ‘A chuva? O vento? A tempestade? Não perdemos tudo?’ Perguntas soltas, a família pensava em conjunto, um completando a frase do outro. Então o pai finalmente fala: Foi benção! A chuva, o vento, tudo, tudo ontem, foi benção, foi benção!
Certas tempestades vêm para nos tirar do caminho, para Deus fazer o que só Ele pode fazer!


